@vouxique

A missão Artemis II ocorreu esse mês, e ela levou quatro astronautas num percurso em torno da Lua e de volta para casa numa missão de 10 dias. Um absurdo, se você me perguntar! A Apollo 11, que pousou na lua, conseguiu fazer isso em 8 dias, mas mesmo assim a NASA não chega aos pés do que os americanos do século 19 já comprovadamente conseguiam fazer em apenas 4 dias. Fica o questionamento… o que aconteceu com o conhecimento institucional dos Estados Unidos nesse período?

Da Terra à Lua é um livro de ficção científica (quando ainda não existia o conceito de ficção científica) escrito e publicado em 1865, por Júlio Verne. Nele, um grupo de artilheiros (não de futebol) e desenvolvedores de armas dos Estados Unidos, entediados pelo marasmo das horripilantes paz (gasp!) e tranquilidade (meu DEUS!) pós-guerra de secessão, lançam um empreendimento até então inédito: disparar um projétil da Terra e atingir a Lua, como demonstração da perícia e determinação da espécie humana (em particular, da estadunidense). O livro trata da motivação, elaboração, desenvolvimento e conclusão deste projeto, pelo qual americanos de um clube de artilharia, o Gun Club de Boston, desenvolvem um obus “Columbiad” imenso, de centenas de metros de altura, carregado com milhares de toneladas de propelente, capaz de disparar um projétil que seja grande o suficiente para ser visto a partir da Terra. No meio do projeto, várias intercorrências acontecem: estando já estrangulados pelas restrições de timing para que o projétil atinja o alvo, os projetistas ainda têm que lidar com um francês que desembarca em Boston dizendo que gostaria de embarcar no tiro. Há apostas, embate de personalidades, um duelo no qual os artilheiros quase se matam, mas nada atrapalha a conclusão do empreendimento.

Eu ganhei esse livro de presente há alguns anos como parte de um box com outros clássicos do Júlio Verne, e devagarzinho estou devorando eles um a um. Embora cronologicamente conveniente (e assim aproveitado no início desta postagem), não escolhi esse livro por causa da missão da NASA, mas sim porque era o menor dos que eu ainda não havia lido, hehehehe

Como outros livros de Verne, a história relata os acontecimentos de um jeito bem-humorado e otimista, onde as coisas acontecem tão apenas pela convicção, vontade de poder e lócus de controle de personagens ridiculamente motivados. A vontade de fazer acontecer os dirige a realizar feitos aparentemente impossíveis com a tecnologia do século dezenove. Muito da escrita está ancorada na hipérbole e na antítese, tanto que Verne tece dois personagens em particular que literalmente reificam a parábola chinesa da lança que penetra qualquer escudo versus o escudo que para todas as lanças.

Em especial, achei a caracterização exagerada que Verne fez dos americanos muito engraçada, em parte porque ela é um reflexo divertido das perepções e estereótipos que os europeus tinham dos americanos na época, e em parte porque a caracterização é tão absurda que passa a ser cômica: que os americanos são comerciantes por primazia e pensam imediatamente em compra, venda e no lucro subsequente; que eles odeiam toda forma de realeza e os ingleses; que adoram armas, munições, explosivos e a guerra; e que têm um apreço especial por coisas enormes e feitos monumentais. Dito isso, o livro não poupa outras nacionalidades, e também alfineta alguns países europeus, como a França (pátria de Júlio), a Grã-Bretanha e a Suíça, mas nada foi particularmente ofensivo demais, eu vejo. Até o Brasil recebe uma citação.

Outro detalhe interessante que o livro traz indiretamente é o zeitgeist da época a respeito da Lua. Vários fatos que o narrador afirma sobre o satélite e sobre viagem espacial no livro são verdadeiras ou próximas da realidade, até em pontos impressionantes para mim, considerando o estado das coisas na época. Talvez mais interessante sejam as hipóteses e incertezas que existiam na época, como a existência de atmosfera na Lua ou a existência de “selenitas”. Também há mais algumas alfinetadas ao senso comum da sociedade vitoriana, como a crença da influência dos movimentos da Lua na vida humana, ou a existência dos “lunáticos”, que acreditavam terem vindo do satélite e queriam voltar para lá. O que me pegou foi quando falaram que a Lua tinha formato de um ovo, com a ponta fina virada para a Terra. Alguns pontos foram detalhados de um jeito bem hand-waved mais para o final, mas isso não diminuiu o valor do livro. E de fato, o feito foi concluído em menos dias do que Artemis II.

Dos outros livros de Verne, achei ele mais semelhante ao Cinco Semanas em um Balão em estrutura. O ritmo do livro é esquisito: ele começa devagar, fica assim por um tempo e de repente acelera bastante, principalmente com a entrada do francês no meio da história. O fim do livro ocorre de supetão e deixa no ar o desfecho dos personagens do livro, e eu não gosto de histórias mal acabadas, mas pesquisando depois, descobri que há, de fato, uma continuação desse livro (que eu infelizmente não tenho em meu box), então menos mal.

No geral, Da Terra à Lua não é nada avassalador, mas é divertidinho e é tematicamente relevante no momento. Vale a pena pegar ele para ler em um dia ou dois se você o tiver em casa, estiver de bobeira e sem nada para fazer.